• quinta-feira, 8 de setembro de 2011

    INDEPENDÊNCIA SEM MORTES

    caradobrasil_thumb6Desde 1822, que ano pós anos brasileiros/as de uma forma ou de outra saem ás ruas para comemorar a independência deste país, Brasil, gigante pela própria natureza. E desde esta mesma data, a grande maioria destes que saem em desfiles “cívicos” volta para suas casas com a mesma estranha sensação: não somos livres. Basta olhar ao nosso redor. Os grandes continuam nos esmagando sem dó e nem piedade. Quem tem, continua tendo cada vez mais ás custa da dor e da morte de tantos brasileiros. Os filhos da maioria de nós estão em escolas comparadas ao submundo. Quase todos os brasileiros ganham apenas um salário mínimo e muitos vivem da famigerada bolsa família ou de vale-votos.
    Mesmo assim lá se vão como dizia Geraldo Vandré, marchando pelas ruas indecisos cordões de pobres uniformizados gritando viva à bandeira, viva à pátria e viva aos corruptos que enganam a nação, que em palanques enfeitados com o verde amarelo acenam maquiavelicamente às turbas ingênuas, que se aproveitam deste momento de circo para se divertirem um pouco, fugindo da corrente do transporte público caótico. As bandeirolas verde-amarelas distribuídas à multidão, quase se confundem com a cor pálida da pele dos desnutridos, e esfomeados atores deste circo de horrores, ostentado pelo poder dos cavalos, tanques e de um sem número de brasileiros, jovens vestidos de soldados, massageando o ego, como se de poderes fossem investidos.
    Portugal está muito distante, mas a escravidão que nos acorrenta é muito mais perigosa e maldosa, que aquela que os “desbravadores” trouxeram para cá. Nossos patrícios, não atacam ao vivo, mas se aproveitam da calada da noite, nos conchavos legislativos, nas jogatinas judiciárias, onde a vida de um ser humano vale menos que um palmo de terra ou que uma cabeça de boi.
    Cabral invadiu o Brasil e escravizou os Indígenas, o Brasil que se proclama independente, mata seus indígenas. Portugal importou Negros Africanos como escravos, o Brasil independente, empurra as Populações Negras para os subúrbios e às favelas. Já gritava o poeta, Renato Russo: “que país é esse?” Pobre brasileiro se pensar e em se apropriar indevidamente de um centavo que não seja seu, é preso, ridicularizado pelos meios de comunicação, e apresentado à sociedade como meliante e apodrece nas masmorras do imundo sistema carcerário brasileiro, por não ter quem o defenda. No Congresso Nacional em Brasília, nos governos estaduais e em muitos municípios, quem carrega dinheiro nas cuecas, nas calcinhas e nos sutiãs, é gente esperta, e não lhes faltam juízes para defender. Portugal não tinha nada com a gente, mas estes brasileiros não são do nosso mesmo torrão?
    Portugal nos tolheu o direito à cultura, por medo da nossa rebeldia, o Brasil que nos viu nascer tolhe-nos o direito e o acesso ao conhecimento para manter no poder infame tanta gente insana, sádica que só é feliz com o sofrimento deste povo teimoso que insiste em viver. Brasil, país gigante e maravilhoso, a culpa não é sua. É nossa, que nos acovardamos tanto, temos tanto medo, que já nem sabemos ao certo o que somos. Não se chateie se hoje eu não comemoro a sua Independência é que ainda não me sinto um homem livre, pois enquanto não formos todos livres, não lhe reconheço como o meu país, mas como o meu senhor, que joga com a minha sorte e a sorte do meu povo, com a minha dor e a dor do meu povo. Eu sei que legalmente meu corpo é livre, mas minha alma ainda está engaiolada com os milhares de indígenas sem terra e sem rumo. Com as comunidades quilombolas e ribeirinhas, acorrentadas à infâmia do abandono, com os sem terra, relegados ao submundo das beiras de rodovias. Aos milhares de famílias enjauladas pelo tráfico de drogas, protegido pelos que se dizem defensores da causa humana. Não se ofenda Brasil colosso, se as minhas lágrimas ao ouvir o teu hino não forem de jubilo, mas de tristeza pelos milhares de irmãozinhos abandonados nos orfanatos e as centenas de idosos que um dia deram suas vidas para fazer de você o que é, e hoje estão confinados em asilos, que mais parecem os porões dos navios portugueses que trouxeram da África os ancestrais da maioria de nós.
    Desculpe Brasil, mas ainda não me sinto suficientemente livre para te dizer: Já podeis da Pátria filhos, Ver contente a mãe gentil; Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil.
    Ainda falta muito para raiar a liberdade. Mas mesmo sem lhe festejar, continuo sonhando e lutando para que um dia, não importa quando, se não for eu, outros brasileiros possam encher o peito e a todo pulmão gritar: Independência sem mortes!

    http://www.crbms.com.br/2011/09/07/independencia-sem-mortes/

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